quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Seres que ficarão na retina

Ficam guardados num piscar de olhos,
pois que são feitos de cores de não veremos mais.

Maira Garcia

Inflexibili-dade

O dia que disser mais não
do que sim.
O dia que disser mais sim do que não.
Esse dia envelhecerá pra mim.

Maira Garcia

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Facílimo.

Facílimo.

Gente que é de gostar fácil,
e gente que é fácil de gostar.
E ainda bem que sempre tem!

Maira Garcia

Rendição

Quando me apaixono,
eu não sei o que faço comigo,
Se eu me levo, me entrego, me abandono,
ou me escondo num abrigo.

Maira Garcia

Peito aberto

Eu fiz uma canção que é tua
 que possa te servir como uma camisa,
que não se abotoa.

Maira Garcia

Desinterpretação de texto

É lendo em desconcerto
que uma hora eu acerto,
mas que ninguém esteja por perto.

Maira Garcia

Que Deus me perdoe a sinceridade dessa vez!


Hoje tive a ajuda de dois anjos e um capeta,
e que Deus me perdoe,
pois eu adorei a ajuda dos três!

Maira Garcia

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Os vizinhos reclamando do barulho.

Escrito em Ata da Reunião do Edifício Tapajós, há exatos 15 minutos.

Na reunião com o síndico Dilermando, do Edificio Tapajós, é chegada a hora das reclamações. A Dona Tereza do 303 ficou sem dormir, o motivo foi Seu Antonio do 304, que deu para jogar tranca na varanda com a Vânia do 305. Todos moradores dos apartamentos de número quatrocentos, querem mandar para os quintos, o casal de recém-casados do 503.
Não sabem nome deles, mas reclamam que estão sapateando sem sapato até o momento, fato confirmado no instante que Seu Dilermando pediu que todos gentilmente fizessem silêncio.

  Maira Garcia


domingo, 25 de novembro de 2012

Subli-mar

É tão sublime, sublimar,
mesmo que seja na marra,
em nome do criar.

Maira Garcia

O Natal da Sé que ninguém quer ver.

A praça mais linda que já vi nessa cidade, perde apenas para as cores e adornos do Natal da Avenida Paulista, protegida com mais gente, família e polícia. A Praça da Sé, já foi de outros capitais, continua e sempre será da Catedral, mas sofre pela pouca fé de nossos antigos e atuais barões. Tirando o que precisa ser visto e agasalhado na praça, do simples ao imperial de suas Palmeiras que torcem pela vida que ali resiste, elas, as Palmeiras, estão vestidas de pisca-pisca amarelo, que não piscam, fazendo do menos seu mais. 
A Praça da Sé no Natal, se apresenta com uma passarela digna de São Paulo Fashion Week e quem quiser ver, antes das nove horas da noite, quando é mais seguro, não vai se arrepender ao enxergar sua simplicidade luminosa. Após esse horário, evitado por muitos, mulheres são iluminadas para circular em sua honrosa e necessária função, observadas cada qual com seu cafetão, concorrendo com as novas Amys sem house, que estão lá pelas pedras que não são de Swarovski porque poderão morrer antes de chegar na 25 de março. As meninas, que valem muito mais que qualquer ouro de tolo, na madrugada, perambulam perto da Rua do Ouro, estão lá para evitar que seus amores vampiros não roubem o tesouro escondido de quem passa correndo, piscando pela praça da Sé, nas primeiras horas da manhã.


Maira Garcia


Deixa eu acreditar por você.

Deixa que eu acredito por você.
Pois quando vejo os olhos seus,
vejo Deus aonde você não vê.

Maira Garcia

sábado, 24 de novembro de 2012

Despacho grátis

Conforme o enunciado, trazemos de volta seu amor,
em alguns dias, com trabalho pesado de poesia.
A entrega é por nossa conta!

Maira Garcia

Há muito tempo.

Há muito tempo,
que o fim do mundo é pretexto.

Maira Garcia

Amigo invisível

-Mãe, lembra aquele amigo invisível que eu via?
-Lembro.
-Ele acabou de se despedir da gente!
-E o que ele te disse dessa vez?
-Que não era pra eu ficar triste de jeito nenhum!
-Como assim?
-Explicou que amigos de verdade nunca vão embora!
-Vem cá! Trazendo a criança junto ao peito, num abraço apertado, antes de perguntar
pela última vez sobre o assunto.
-Você ficou triste?
-Não, mãe. Dessa vez eu acreditei nele!

Maira Garcia

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Caminhão de mudança

Um espelho foi carregado junto,
e durante a mudança,
virou o mundo.


Maira Garcia

Aqui o bicho também está pegando.

Uma andorinha se viu sozinha quando sobrevoava perto da Fundação Casa, no Brás, em São Paulo.
Não conseguiu entrar lá por causa das grades. A situação complicou pois uma sozinha não faz verão mesmo, porque a cidade está repleta de pombas e pardais, cujo território é marcado por força de artilharia pesada de digestão. A saída foi fazer um rasante no metrô, e foi lá que a pequeninha seguiu arrasando e embicando, a especialidade desastrosa da espécie mais cheia de bossa.
Conseguiu entrar em pleno horário do rush, precisou de coragem, mas não demorou muito e começou a falhar o motor no meio da paisagem humana. A primeira embicada foi numa senhora que gritou no aperto dos caminhantes:
 -Morcego! Que horror!
E começou a gritaria com tumulto. O coração da bichinha não estava segurando, e num impulso de poucos metros, seguiu o caminho da estação, e em menos de 30 segundos, entrou numa sacola, bateu num boné de dois que se beijavam e quando pensou que tinha chegado a hora derradeira, avistou aquilo que parecia impossível para seus olhinhos esmagados e apreensivos.
Encontrou na miopia da aflição, uma planta de alguém seguindo o fluxo do trem, e pensou:
- Agora me finjo de morta e assim que essa planta para de andar, eu escapo antes que o trem abra a porta!
Quando deu por si, as asinhas estavam quebradas e pensou:
 -É o fim da linha pra mim! Como eu vou sair daqui?
Pediu ajuda pro céu que ela sempre voa, mas a mão do santo que chegou foi diferente do pedido.
Um rapaz cheio da paciência no trajeto, um dos poucos que dizia com licença, por favor, espera um pouco, na pressão e calor do aperto, foi abordado por uma criança que estava com a mãe segurada no colo:
- Mãe, é o Batmam no cabelo dele? A mãe nem quis ver, mas o rapaz agradeceu o menino:
- Obrigado! E foi puxando as duas tranças de um metro e vinte, aonde o menino viu seu herói pendurado.
Era a andorinha e seus olhinhos esprimidinhos, em ponto de cruz, pedindo pelo céu se fingindo de estátua.
E o moço concluiu:
 -Foi Djá que trouxe você, pequenina!
O menino completou:
-Foi Deus quem trouxe o Batman, mãe? A mãe quando viu o tamanho da trança, puxou a criança para o outro lado e nem confiança.
E o rapaz da trança respondeu ao despedir-se do menino:
-Sim, acho que foi Deus que trouxe a andorinha!
E a ave foi com ele, protegida pela bolsa e a bandeira da Jamaica até o bairro de Guaianazes.
Ficou uma semana tratada com regalias de um rastafari e acabou indo embora, em cima da hora no verão.
Depois realizou um voo tranquilo até Pirituba, onde muito viva seguiu para cidade de Campinas, porque em Sampa, sem turma grande para voar em bando, percebeu que o bicho realmente está pegando.

Maira Garcia        

 Foto tirada com meu celular, na plataforma aonde esta estória acontece.

A maior tragédia que pode existir

A maior tragédia que pode existir,
é achar que tudo que se passa no mundo, 
que tudo, que tudo, 
foi feito pra si.
Sendo assim,
a maior tragédia que pode existir,
é o se, é o se, é o se.

A maior tragédia que pode existir,
é não existir para si.
É poder ouvir e não ouvir,
é ter olhos e negar a visão,
sentimentos e negar o toque,
é ter mente e não ter coração.
Sendo assim,
a maior tragédia que pode existir,
é não saber
o existir do mundo,
do outro mundo,
do mundo do outro e de si.
Sendo assim,
a maior tragédia que pode existir,
é o si, é o si é o si.


Maira Garcia

Dedicado aos grupos Payasos sin Fronteras, Pallasos en Rebeldía e todos os palhaços do mundo que trabalham trazendo alegria onde nenhum outro meio alcançaria.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A cara no poste

Pode ser até um cartaz colado num poste,
estampando uma cara de sorriso,
pedindo um abraço apertado dos amigos.


Zumbi para os que ainda dormem.

Salve Zumbi, Ganga Zumba e todos que vieram antes e depois.
E os que ainda dormem,
por favor, acordem!

Maira Garcia

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A sua visita.

As palavras te levaram pra passear,
que a poesia faça você voltar.

Maira Garcia

Dedicado ao escritor Paulo Rodrigues.

Era uma vez um lugar vazio.

Eis que um dia,
todos os espaços foram devidamente preenchidos,
e foi aí que finalmente conseguiram descobrir
aonde morava o perigo.

Maira Garcia

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Olhar que não arranca pedaço.

E foi de olhar que passou a observá-lo.
E foi de observar, 
que passou a farejá-lo.

E foi pelo cheiro que descobriu que ele tinha um par,
que não era de vaso.
Descobriu que o par dele, era exatamente como ele precisava,
não pelo porte, 
ou pelo pelo, 
mas pelo olhar.
Descobriu que ele era mais frágil, 
não pelo tamanho e
que precisava dela pra todo passear.

Foi um dia desses, na calçada, 
que conheceu a mãe dele,
que também era mais forte que ele.
Se alguém puder explicar este passeio,
quem sabe colocando o tal do Freud no meio?
Mas será que o Freud entende de cão?
Porque ela, a de tanto farejar
que desistiu até de olhar
por descobrir o par,
é vira-lata, 
o par dele, uma cocker, 
e ele, inexplicavelmente,
um baita de um pastor alemão!

Maira Garcia

A charge

Uma alegria ou uma tristeza imensa,
mas o que seria de nós
sem uma charge pra mostrar
como o mundo é besta?

Penas da natureza

Que as mães e os pais corujas,
fiquem apenas na natureza,
que as mães e os pais corujas daqui,
estão nos enchendo de penas.

Maira Garcia

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pra nos encher de coragem

Amizade é o que temos de mais precioso,
e de graça nos enche de coragem,
faz perceber de um jeito prático
e despretensioso
como perdemos tempo
com bobagens!

Maira Garcia

domingo, 11 de novembro de 2012

Entretelas

Atravessar o dia,
chegar tarde,
entreter a noite.

Maira Garcia


Versos livres versos

Versos que são livres versos,
que são lidos,
livremente
no universo.

Favor deixar
versos soltos.

São versos,
sãos seres,
por serem versos
livres
em seus dizeres.

livres versos,
versos livres,
versos livres de viver,
que são os versos,
universos
de todo ser.

Maira Garcia

sábado, 10 de novembro de 2012

Sauda-ção

Dias bons,
são recibos de um dia que passou,
pra servir quem quer
receber novamente:
- Bom dia!

Maira Garcia

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A chegada e a partida de Clara.


A galinha chegou pelas mãos do chacreiro Seu Venâncio, no dia que o rádio e a televisão anunciaram o falecimento da cantora Clara Nunes. Não demorou para ser chamada de Clara, fora do galinheiro, é claro. E pelo dia de luto que veio, ficou decidido que não morreria como as outras. Seu destino não seria a panela. Depois de muito acordar e dormir, cacarejar, botar ovos, ver o nascimento e a partida de muitos galos e galinhas, o dia mais claro da Clara chegou. Seu Venâncio, percebendo o peso dos olhos da galinha e o fôlego sacolejado que se desalinhava a cada suspiro, abriu o galinheiro para Clara partir. Para as crianças menos crescidas, explicou que a Clara, que era muito aparecida, ia desaparecer na estrada. Tinha namorado, casado, virado mãe, avó e bisa e caprichado muito no feitio de seus ovos saborosos e que não achava direito que dormisse para todo sempre por ali. As crianças acenaram para Clara, que já não via mais nada. Para homenageá-la, a mulher do chacreiro, Dona Lucinda, colocou para tocar na vitrola um disco pra ir repetindo uma canção cheia de esperança, chamada "Minha Partida", na voz de Clara Nunes. E Clara sumia, ensaiando pra quem via, uma dança curiosa, do pouco equilíbrio, do desenho de suas marcas deixadas no caminho. E lá se foi  na calçada de terra, toda cambaleada, sumindo pra dormir para sempre na mata. Foi se despedindo, sentindo o respeito das promessas que o bicho homem às vezes faz e às vezes cumpre, a galinha foi marcando um ritmado desassossego, de meio fiozinho, um quicado que dava o rumo da sua nova morada. E foi numa chácara, numa beira de estrada do Brasil, que um povo a seu modo, inventou um jeito de deixar claro a saudade de um cantar, não deixando levar pra panela, uma galinha, batizada com o nome de Clara.

Maira Garcia

Lente de água

aguado,
o mundo muda de tamanho,
sem querer.

Maira Garcia

Vamos dar nome aos pássaros?

Vamos dar nome aos pássaros?
Pois os bois, não tem jeito,
já foram marcados.

Maira Garcia

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Rebento

O Pedro estava mais inquieto que de costume. Jacira, a empregada, depois dos cortes de despesa da casa, acumulava a função de babá e diarista e ainda por cima estava grávida de quatro meses. Estava difícil passar a roupa pois a cada cinco minutos precisava parar e atender o chamado do menino que ainda não completara  cinco anos.
Dessa vez, o Pedro quis lhe fazer uma pergunta:
-Eu preciso descobrir como funciona isso, Jacira.
-Que foi, Pedro?
O Pedro olhava sério para barriga da Jacira. O menino colocou  a mochila na frente da barriga e abrindo o zíper, colocou um livro dentro.
- E agora, Jacira?
-Desembucha, Pedro! Eu tenho uma pilha de roupas pra passar e você não está deixando!
- Jacira, olhe!
Colocando as mãos na mochila que levava na frente, imitando o jeito que Jacira segurava a barriga, disparou:
- Acabo de descobrir que minha mochila está grávida de um livro!

Por escrito

Carregava a bolsa na frente. Somado o volume do peito, agora levava
 suas dores nas costas.
A mochila que guardava cadernos e livros, era toda rabiscada com um
nome escrito com caneta em tinta azul. Quando a bolsa estourou, o bebê
que ali se escondia, ganhou o nome que a mochila trazia. Pedro.


Detido

Dia duro de furto. Antes de sair do centro, teria que usar seus sete dedos para realizar o feito. Não conseguira nada até então. Havia tumulto e aperto, perto do metrô, parecia perfeito. Uma dona distraída, que levava sua mochila vacilada, nas costas, olhava as fofocas da revista numa banca da Praça da Sé. O moço tentou fazer de conta que também via e le
vou sua carteira, bastando roçar e dedilhar, raspando o zíper. A mulher desceu as escadas indo para estação. Escondido e satisfeito, abriu a carteira, viu o que queria, mas voltou atrás com a cabeça, correu pela mulher. Correndo e agora de encontro, descendo escadas.
A mulher procurando a carteira pelo bilhete, antes da catraca, deu por falta e entrando em desespero ia na direção do guarda.
O rapaz chegou pouca coisa antes.
-Senhora, deixou cair sua carteira! Respiração curta e olhos assaltados.
-Deus te abençoe, moço! Segurando firme suas mãos, quase que beijando, em sofreguidão.
-Sou eu mãe, o Mariano, não me reconhece?
-Mariano, por onde esteve, se passaram quase dez anos! Tocando o rosto de um homem que um dia foi feito, agora procurando tatear a verdade em suas digitais.
Vozes da estação, multidão de dois, alguns anos na prisão, noites sem dormir, a eterna busca. A mãe não segurou a mão, o abraço com a mochila nas costas terminou em desmaio, mas não caiu. Dessa vez, foi o filho quem segurou. Embarcariam em algumas horas, em dois dias estarão na casa de mainha, em Feira de Santana, na Bahia.


Maira Garcia

Cruzamento

A mochila caiu em frente da Praça Ramos de Azevedo. Um pegou um braço, o outro pegou outro. Estavam devidamente abraçados. Dançaram tango, floreado e xaxado ao som do camelô que gritava antes de passar o rapa. Foram aplaudidos e filmados. Moedas no vestido, colhidas mais tarde, perto do umbigo.

Maira Garcia

Trilogia da mochila

Arrebento

Ia arrebentando a mochila, a garrafa de água molhou papéis e documentos.
A correria foi intensa até chegar no prédio central.
Arrebentou dentro da biblioteca.
Dois exemplares foram salvos e agora passam bem.

Detento

Dia duro para um furto. Antes de sair do centro teria que usar seus sete dedos para realizar o feito, não conseguira nada até então. Havia tumulto e aperto, perto do metrô, parecia perfeito. Uma dona distraída que levava mochila nas costas, olhava as fofocas da revista numa banca da Praça da Sé. O moço tentou fazer de conta que também via e levou sua carteira, bastando roçar e dedilhar delicadamente o zíper. A mulher desceu as escadas indo para estação. Escondido e satisfeito abriu a carteira. Voltou atrás com a cabeça, correu pela mulher. Correndo e agora de encontro em ponto de bala, descendo escadas.
A mulher procurando a carteira pelo bilhete, antes da catraca, deu por falta e entrando em desespero ia pedir ajuda para o guarda. O rapaz chegou pouca coisa antes.
-Senhora, deixou cair sua carteira! Respiração curta e olhos assaltados.
-Deus te abençoe, moço! Segurando firme suas mãos, quase que beijando, em sofreguidão.
-Sou eu mãe, o Mariano, não me reconhece?
-Mariano, por onde esteve, se passaram quase dez anos! Tocando o rosto de um homem  que um dia foi feito, agora procurando tatear a verdade.
Vozes da estação, multidão de dois, alguns anos depois da prisão, noites sem dormir, a eterna busca. A mãe não segurou a mão, o abraço com a mochila nas costas terminaram em desmaio, mas não caiu no chão. O filho foi quem segurou a razão.  Embarcariam em algumas horas, em dois dias estarão na casa de mainha, em Feira de Santana, na Bahia.

Cruzamento

A mochila caiu em frente da Praça Ramos de Azevedo. Um pegou um braço, o outro pegou outro. Estavam devidamente abraçados. Dançaram tango, floreado e xaxado ao som do camelô que gritava antes de passar o rapa. Foram aplaudidos e filmados. Moedas no vestido, colhidas mais tarde, perto do umbigo.

Maira Garcia


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Identidade

Não se sabe seu nome,
mas
revira o lixo,
nem tem como negar.
Tem alguém ali.
Que ainda está.

Com fome.

maira garcia

Uso minha licença poética porque não sou jornalista para falar de Mia Couto.

E o Mia Couto fez a Mona Dorf se emocionar ao ponto de quase embargar aquela voz segura que costumamos ouvir, ontem no Cinema da Livraria Cultura. 
"Como escrever algo com uma alma tão feminina, me explica?"
Após ler a introdução de um de seus livros. A mulher que vive na África como um todo, e em Moçambique é enorme, mítica e soberana, mas vive sobre uma violência, se é magnífica, é considerada bruxa, e sendo exuberante por si só é castigada. Os homens ali tem medo delas e respondem com vingança e violência, e aí consiste a mulher que precisa existir e vou de encontro a ela, transcrevo com minhas palavras um breve resumo. Tivemos o Mia lendo trechos de "A confissão da leoa", ao nos contar a partir de um fato real sua Moçambique inventada, como ele sempre diz. "Há muitos sítios ali que não existem, não adianta procurar no mapa!". E quando afirma que "as perguntas são mais cheias que as respostas" e "gostaria de mais luz aqui, esta penumbra confere ao local um certo ar de clandestinidade, e eu gostaria muito de ver vocês", fez valer a pena ter ido lá para ouvir o que o sertão de João Guimarães Rosa nos trouxe de volta pelo mar. Com a pele rosa, olhos azuis de fogo, alma negra e mestiça, Mia Couto.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Sinto muito

Duas palavras que resolvem questões
em menos de 10 segundos.
- Sinto muito.

Maira Garcia

Folhas vivas

Vez ou outra, a folha vem e toca alguém.
Dizem que não respiram sem a árvore,
mas voam vivas em folha.

Maira Garcia


domingo, 4 de novembro de 2012

sábado, 3 de novembro de 2012

Um quarto de horas.

Corpos se derretiam em colheres de
variados sorvetes,
e no calor dos tecidos,
dos exercícios,
iam se imprimindo
 de cores fortes nas paredes.
 Tantas e tantas vezes,
que um afresco quente
foi surgindo num painel
daquele quarto de horas.
Eis que um dia,
a solidão dos famintos,
 atravessou em carimbo,
o outro lado da parede.
No alto do prédio,
podia-se ver
um desenho de um avolumado
sentimento sem nexo.
Gravado na memória
de tanto açoite,
de tanto sexo.

Maira Garcia

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Dó de dor

doído,
doido que só,
moído.

maira garcia

autotatuagens

dos montes,
dos hieroglifos,
vou grifando
vontades

até que
em mim se desenhem
sozinhas
as
tatuagens.

maira garcia


Tão rápido que é pra não sentir dor

Beija-flor,
faz tão rápido
que é pra não sentir dor.

Maira Garcia

Imagem de Felipe Pimenta

Toque de se recolher


Toque de recolher, era a hora de tirar
as cadeiras da
calçada,
antes da dita-dura toda armada.
Hoje perguntei para polícia fardada,
sem malícia,
a polícia que é militar de polícia,
sobre toque de recolher,
mas já era tarde demais.
Homens armados,
colocaram as cadeiras da calçada pra correr.

Maira Garcia

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Açaí de assanha

Açaí borrou na boca,
virou batom,
bateu uma sede tamanha,
e ninguém mais sabe a cor
que ficou.

Maira Garcia