terça-feira, 29 de setembro de 2015

No fundo,
 gostaria
que alguém
me versasse.

E num empuxo,
me devolvesse.

Para a superfície.
A sincronicidade, a simultaneidade é a prova que estamos sintonizados por um rádio. 
Cabe descobrir, em qual estação.
Papai do céu,
hoje eu entendi o que é
repetir de ano de verdade.
Repetir de ano é cair nos mesmos erros,
o que parece, não deixa eu crescer.
Se isso acontecer,
que eu saiba levantar dos erros,
me perdoar,
e não colocar a culpa
nos outros. Hoje quando eu cai do skate,
meu pai me explicou isso.
Se eu repetir de vida,
que eu acho que é repetir de ano,
que ao dormir eu possa nos sonhos
me encher de esperança,
retomar minhas lições
de casa. Se eu tiver pesadelo,
conseguir acordar e voltar
pro sonho. Eu já consegui
fazer isso, meus amigos
não acreditaram. Eu só
me belisco e acordo.
Que eu não me esqueça
do pai nosso das pessoas.
Mamãe disse que é feio,
andar na rua comendo
e não oferecer pra quem
passa. Se meu estômago
roncar na rua,
eu prefiro sentir fome
e deixar o pão na lancheira,
até aprender e poder
dividir.
Na escola eu consigo fazer
isso com meus coleguinhas,
espero fazer na rua, quando
tiver mais lanche.
Se eu repetir de ano, tudo bem,
pensando bem, dá pra
consertar, entendi que sim,
está escrito no pai nosso,
que eu ainda não decorei.
Tudo bem?
Vou terminar minha oração,
já está grande, eu sei. Só
falta uma coisinha.
Dizer Amém.
É só precisar,
pra saber se precisa.
Sem saber,
é difícil tomar a direção.
Liberdade tem um preço então.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Degustação
Estou de olhos fechados,
mas estou vendo,
sinto um gosto de coentro,
um cheiro amoroso,
um corpo no intento,
dançando gostoso
por dentro.
Dona Lua ficou vermelha.
Dona lua saiu, correram para o quarto as luas, nova, crescente,
cheia e minguante. 
Elas fizeram festa, dançaram juntas até escurecer e bagunçaram o quarto.
Dona lua chegou em casa, as luas estavam dormindo.
Dona Lua viu o quarto e ficou vermelha de raiva.
Deu um eclipse nela.
As luas bagunceiras ficaram de castigo.
As pupilas pularam
sozinhas,
juntas formaram
uma reta, 
e sem elas,
um ponto cego,
onde tudo começa.
Guardaram os acentos,
palavras que iam sentar,
perderam o lugar.
A cor de dentro,
preto, a cor de fora,
manto, cinza,
o céu derrama
água, tinta,
grama verde,
vermelho do
meu sangue,
mangue,
vida estanque.
Amarelo,
elo.
Leminski.
Eu fiz pro Kandinsky.
Domingo,
indo e vindo,
vejo índio
nas estações,
nos nomes,
sem nações,
de um
Brasil tão onde,
tão longe
que se esconde
em plantações,
nos gados,
minerações,
hidrelétricas
intenção
de choque,
povo do centro
do sul e do norte,
Cafuzos, conflitos
dos aflitos,
brancos, pardos
proibidos.
E a natureza
que se cansa,
aquece o peito
na criança,
e reza pelos
homens que
não nasceram
ribeiros.
Um amor contrariado,
ao contrário,
é órgão
exposto,
tem teclas
pretas e brancas,
embaixo das ancas,
tudo se confunde,
é a mesma bacia.
Homem mulher,
não importa.
Contrariado,
ao contrário,
amor é carne exposta.
Ao contrariado,
para quem possa,
abraça, acalenta,
acarinha na prosa,
que a pele permeia
e se dobra.
Um elogio sincero,
é um beijo
no ouvido.
Quem deixa beijar,
ganha um arrepio.
Um elogio sincero
pede um coração
limpo, no peito.
Se estiver pesado,
não bate direito.
Elogio bonito, não
entra no ouvido,
não ouve direito,
sai chorando,
contrariado,
vai embora
correndo.
as cores de Kandinsky
podem ser
vistas
com os olhos de dentro.
Mooca, estação que teve cheiro de cevada, café e bolacha. Hoje tem memória.
Quando a gente
se afasta de alguém
que não está bem,
o bem se afasta
da gente também.
A tucanada passa em revoada,
quero-quero, sozinho,
desesperado.
A Mata Atlântica
pelada de Rodoanel.
Nem a chuva impede
o tráfego
áureo no céu.

sábado, 26 de setembro de 2015

Todo encontro é pra sempre talvez.
Para a amizade dos escritos e escritores,
Mia Couto e Agualusa.

Mia
Lusia
quando Água
desaguava,
e como ria!
Lá fora chovia,
e a plateia
babava.
Cada história
contada.
Tristeza
poesia.
Amizade
na mesa
dividida.
Muita risada.
Lusofonia,
Brasileirada,
Amantes brasilis,
dos livros,
Amigos
incríveis,
brancos de letras
pretas
Da África
fantástica.
Há vagas entre os vagões.
Casas nas estações


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Eu já fiz coisas,
que não faço por mim,
então parei pra ver 
onde errei, 
e percebi que
não podia mudar,
a não ser a visão
do que é
realmente
ajuda.
Nem muito o céu,
nem muito a Terra.
Um prato de comida
pode ser um ecossistema.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Quero que faça vento,
nesta tarde,
e que a chuva caia
sem raio.
Quero ouvir
uma canção
a confirmar
a previsão
no rádio.
Chuva aos cântaros.
Sem as duas mãos
é usar os pés.
Sem os pés e mãos,
é o que tu
és.
Mente coração,
coração e mente.
Depois de algumas tentativas
de plantar gentilezas,
elas vingaram.
Modificaram o planeta.
a madrugada,
trabalha
olhando por dentro.
Falando por dentro,
respirando por dentro.
O mundo fica por fora
do movimento.
De quem trabalha hora adentro.
que as flores toquem,
quem não ouve.
Deixar de gostar
e ver um horizonte
ficar antigo e ver o bonito desbotar.
E de pensar que era tão colorido,
que só faltava respirar.
Deixar de gostar é esquisito.
encontrar
o horizonte
que ainda é bonito.
Sem sentir saudade

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Céu de algodão doce,
no palito vai o azul e o rosa.
O palito de algodão branco
foi embora.
Se gostam,
e por não saber usar
o porquê se perdem.
Poema enfrenta problema sem solução:
- São tantos amores que me dão,
que não sei mais quantos eus,
nem quantos são.
Eu não vou mentir
tudo que escrevo
tem um relevo,
lavas que levantam
da pele e formam
placas
tectônicas,
os sentimentos
rompem
formam
continentes,
montes,
cordilheiras.
A terra
com povo
pisando nela
é a pulsação
do meu mundo.
Imagem são palavras imaginadas.
No presente,
chegada e partida
se casam.
Isso explica a razão
que faz o amor
parar o tempo.
Depois
separam.
Um vai morar no futuro,
o outro no passado.
Isso explica a razão
que faz demorar
o tempo.
Até que a morte
os separe,
presente
passado
e futuro
se encontram
e separam
o tempo inteiro,
até a hora que
para
no amor
verdadeiro.
Para despedaçar
o aço
separe as sílabas.
Céu carrega o lençol cinza,
pra recolher a tinta.
Utinga, xingamento no vidro.
O diabo morando
nos detalhes do
domingo.
Rosa que ganhei 
depois ouvir um poema, 
murcho de viver
o que valeu a pena.
Por ter sido entregue
por uma pessoa poema,
que não sabe que é poesia.

O nome dela é Gilza.

A Gilza declamou Plutão, do Olavo Bilac,
antes que pegássemos o último ônibus
da sexta-feira. Nos conhecemos por levar
muito feliz quatro rosas murchas, aqui
está a minha.
Ela levou pra casa a sua trindade
de felicidade. Coisa de contar
que não se acredita, nessa vida
tão criativa. Mas tem que contar
que é poeta. E eu sou exibida de contar,
e faço isso contente. Quem disser
que não é poeta, mente.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

sábado, 19 de setembro de 2015

Poema para escritora
Maria Carolina de Jesus.
A hora que ela passar,
vou fazer as pazes com Carolina.
Eu me chamo São Paulo,
e sei o que fizeram com a Maria.

Nem ter o nome de Jesus
a salvou
do martírio que ela passou.
Preta pintou as letras,
preta pintou as letras.
Que o tempo não secou.
Queria ver Carolina,
e lhe falar o meu amor.
Ela está passando,
do lado da carrocinha,
estou vendo daqui.
a menina que está
aí pode ser a Carolina.
A vida que ensina.
Preste atenção nos detalhes,
detalhes cantam canções,
canções é que valem.
As rosas nunca murcham,
é ilusão, minha gente!
E eu ganhei
uma murcha.
Pra ganhar rosas,
frescas e fingidas
de murchas,
tem que contar
que é poeta,
e eu sou exibida
de contar sempre.
Quem diz que não é poeta, mente.
Repare nas palavras,
quando muito notadas,
soltam palavrões.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Praxedes, na sacada, resmunga com o vizinho, enquanto fuma seu cigarrinho:
-As cigarras, não, Afonso. Na verdade, os cigarros. Eles queimam de calor.
E não precisa ser verão. Eles fazem campanha pra fazer amor. Enquanto traga e solta a fumaça.
Amor, não, Afonso! É sexo mesmo. 
E durma com esse barulho todo! Esmaga o cigarro no cinzeiro com força, como quem tenta furar, e solta sua despedida esfumaçada:
-Boa noite, Afonso! E fechando a janela num bate-bate, deixa falando sozinho o vizinho:
-Boa noite, Praxedes...
E o Afonso continua na sacada, pasmo, fumante passivo, com o vizinho, ouvindo as cigarras, os cigarros, e os passarinhos.
A vida,
esse acho
de certezas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Fiquei sem celular hoje, sem GPS, desci na estação Vila Madalena. Destino Rua Simpatia. Parei na primeira banca de jornal que encontrei. Uma senhora quase simpática me disse ter duas ruas Simpatias na Vila. Agradeci e fiquei mais perdida. Logo vi um táxi, quando fui falar, deu partida. Encontrei um segundo táxi depois dos pontos de ônibus, e ele me explicou, quase sorrindo, que era pra seguir a rua, e ao ver um farol, virar na lateral. Ainda insegura, encontrei um senhor muito alegre, que disse que não sabia, mas devia ser perto, pois estava perto da Rua Harmonia. Dei de cara com uma farmácia homeopática antes de fechar, e saiu uma moça, parecida com a rua que eu ia, chamada Nina, que iria passar perto. Deu pra conversar uns cinco minutos, chegamos na Simpatia, encontrei a casa que eu ia, missão cumprida.
ganha
na sua ausência,
o poema.
A poesia pede
silêncio.
Espera buscar
o lenço.
Para conversar
o que não se vê.
No meio do
soluço, nem sempre
manifesta.
Tá pensando
que poesia é festa?
As cigarras, não.
Na verdade, os cigarros.
Eles queimam de calor.
E não precisa ser verão.
Eles fazem campanha
pra fazer amor.
Amor, não.
É sexo mesmo.
E durma com esse barulho todo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Não tem mais siesta
nem na Espanha,
a crise
esta 
estranha.
eu sei dela,
mas tem quem
não viu.
não viu,
nem vai
ver se ela
não se apresentar.
Pergunte dela,
pra você ver,
quem é ela,
onde está?
O mundo falando
de economizar a
economia.
Eu olho como,
quem não sabe.
Sorrio à toa.
Danço
arrocha
do arrocho
na cidade.
A crise está
atravessando
a rua, eu não posso
me distrair.
Se ela for atropelada
não posso mais dançar,
como quem não está nem aí.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Nem disfarçou,
o dedão e o indicador,
estão olhando no visor.
retrovisor.
E vem o amor
e passa.
nem disfarçou,
os olhos nem piscaram,
não tem seta.
Ninguém acertou.
Não repararam
No amor
que passou
no dedão e no indicador.
Já era,
na nova era
o amor.
E foi pegar o táxi, 

do lado da catedral da Sé, não dava pra ir a pé, chegar estava pela hora da sorte, o trajeto levaria vinte minutos, precisava chegar em cinco, falou o destino, combinou mais o menos quanto ficaria o preço, perto de dez reais e foi. No táxi:
-Deixa eu ver como estou de troco. Tem pra cinquenta?
-Senhora?
-Tem pra cinquenta? 
-Preciso ver, acho que tenho.
-Como é lindo o Centro! Deixa eu ver aqui. Tenho dez.
-O que a senhora disse?
-Que isso aqui é lindo. Nunca me canso. Vocês ficam tanto aqui, que nem percebem.
-O que a senhora disse?
-Que o Centro é lindo! Eu ando sempre por aqui, de carro é raro.
O motorista estava de fone, teria que falar mais alto.
-Chegamos perto, pode me deixar aqui?
-Eu vou virar, te deixo em frente.
-Ficou dez mesmo? Mesmo? O senhor fica sempre lá?
-Lá é um ponto de táxi. Sim!
-Ok, preciso saber, passo sempre por ali, o senhor foi muito ágil, muito obrigada!
Seguiu correndo para o destino em cinco minutos, pegou o finalzinho do começo. No final, depois das nove, aproveitou o fluxo e entrou no metrô no Anhangabaú.
E começou a atinar:
-Eita, eu não paguei a corrida. Não me lembro de ter entregue a nota e tem uma amassadinha aqui. Vou voltar lá!
Desceu na Sé, perto das dez, muita gente circulando, atravessou a rua, ele estava quase saindo.
-Oi! Ele estava sem o fone.
-Lembra de mim, perto das oito?
-Lembro, sim!
-Eu te paguei a corrida?
Esticou um sorriso, apertou forte a mão.
-Não acredito! Tem certeza?
-Tenho! A senhora pagou!
-Vou olhar a chapa do seu carro! Vou jogar, hein? Sorriso descrente, sem graça, não conseguindo encarar.
Ele ficou olhando ela indo embora, encostado no carro, e ao atravessar a rua, ainda acenou bem feliz na praça que se esvaziava.
-E aí? Um colega do ponto perguntou.
-Ela pagou mesmo?
-Não sei, nem ela sabe. Quantas vezes isso acontece aqui?
-Quase nunca!
-Então, tem dez reais que podem valer um milhão!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O tempo,
um dia
e uma noite
igual.
O hemisfério
pela espera
da Primavera.
O tempo,
um dia e
uma noite
sem igual.
E as flores
desconhecem.
É sem querer
que florescem.
O ar frio
aproveita
a umidade 
relativa dos tecidos,
e beija a pele
dos desprevenidos.

domingo, 13 de setembro de 2015

Entrelinhas
Mais do que uma volta de carro, vontade dos amigos da vila, o menino queria uma volta num terno, bem alinhado, recortado
feito sob medida. Menino num terno, demorando dentro do que seja a tal fortaleza dos tecidos, a costura, o lugar dos bolsos, um certo brilho
que tende para o fosco. Um terno, em qualquer lugar do mundo, pode ter um cadinho de autoestima, no meio das bermudas, nos corres dos tênis, nas abordagens da cidade.
No colo da avó, ouvido bem pequeno de ouvir.
O menino, volta e olha no espelho.
- Um terno bem recortado, acinturado também cabe muito bem nas meninas, nem que seja apenas por um dia.
Ouviu isso da avó costureira. Costurado com toda maestria.
- Os alfaiates estão desaparecendo, mas eu ainda quero
fazer experimentos de alfaiataria. A vó sempre dizia.
- Para os pés no chão, peço sapatos femininos mais
confortáveis, de fácil encaixe.
Para serem bonitos, sapatos inventaram
que tem que machucar os dedos, e causar calos, menino!
- Vou abrir uma loja de ternos feito sob medida! Falou o neto.
Lá, terei também, sapatos bonitos que não machuquem, seus pés, vózinha.
Que fiquem bem, até às seis, na sua volta do trem.
- Quero fazer roupas que nos passem a coragem merecida, que o tempo descostura. Me distrai conversando com você! Vou ter que refazer um pedaço da manga!
O desmenino, deixou a foto da vó no relicário na sala, perto da porta.
O neto colocou na cabeça, o que chegou soprado nas entrelinhas.
Olhou no espelho como ficou bonito e confiante, com o terno cinza, impecável, mesmo sem um pedaço da manga. O mesmo terno que vestiu no dia do velório dela.
- Eu vou ser alfaiate!
Spam não vale
eu fico feliz
quando alguém passa aqui
pra ver mais histórias
que não vivi,
mas passei.
eu fico triste
quando alguém
que não existe
passa aqui pra lembrar
o que não viveu.
eu não fico
indiferente,
nunca.
Até quem não me conhece,
já percebeu o quanto
eu gosto de gente.
spam
não vale,
que não tem memória,
sons, sabor, pele
nem sonhos.



Malvado
No pouco que se vê,
dá pra perceber
quando se vê
um ser apaixonado.
A pupila jabuticaba,
a boca sem querer baba.
E a respiração.
No pouco que se vê,
um olhar perdido,
um querer indeciso.
De se perder na multidão.
Pergunto se o cupido,
culpado e preciso
não tem dó não.
Pergunto se o malvado
sabe disso,
que a paixão
é sumiço
de uma poção
de razão.
A menina sofria de uma anomalia. Saber o que a pessoa tinha pelos cheiros que exalava. Evitava ficar muito próxima ao hálito, sabia quando a pessoa estava com gastrite, prisão de ventre, e já havia sentido um câncer de uma amiga. Ela fazia segredo, algumas vezes puxava assunto para saber da última ida ao médico quando se sabia algo grave. Era uma sensação angustiante. Com a sinusite a coisa se agravava, a informação atravessava o corpo, valorizava pela roupa, então sentia a tristeza num cheiro azedo, feito cachorro molhado, a alegria rosácea com notas de limão da pérsia. Alguns usuários de drogas que ninguém percebia, um cheiro de maquiagem guardada vencida.
Ela, com esse problema tão particular e indiscreto na sua presença,
agradecia o dia de acordar com o nariz completamente entupido.
Na padaria o pingado dorme no balcão pelando. 
A boca sorve, não queima por sorte.
O quadril equilibra num banco giratório, 
bandeja de pernas, troncos e cabeças que pedem cerveja. 
Quem pede café quer perder o sono, quem pede brevidades, 
come o abandono. 
Gostoso mesmo é quem perde conversa pra ganhar a tarde. 
Nem come o tira gosto, encosta no ombro, ajeita o tronco,
 pra segurar a mão inteira.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Meu jeito de gostar
 de você
é nada a ver.

Eu não preciso ver
e gosto.
Você não precisa fazer
nada

e gosto.

Até hoje não entendi
a pergunta que você me fez,
o que fez
 eu gostar
de você.

Você é nada a ver.
No pouco que se vê,
dá pra entender
quando se vê
um ser apaixonado.

A pupila jabuticaba,
a boca sem querer baba.
E a respiração.

No pouco que se vê,
um olhar perdido,
um querer indeciso.
De se perder na multidão.

Pergunto se o cupido,
culpado e preciso
não tem dó não.

Pergunto se o malvado
sabe disso,
que a paixão
é sumiço
de uma poção
de razão.
Envolto,
aplanar das abelhas
loirice vermelha,
folhas pigmentadas,
arcos gravetos,
mãos vértices.

Algodão malhado
de mel.

Elipses,

Ipsis litteris.

Hélices.

Elfo,
pra nunca mais ver.

Embalado

De primavera.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O quarto verso do dia,

 tem a pretensão de ser poesia.
Ele quer falar de amor,
mas não tem esse poder de falar,
pois não pode atuar
sem alguém
emprestar o corpo
para ecoar suas palavras,
através do globo das mãos,
então espera impaciente,
que surja um verso
em algum lugar
que faça sentido.

O quarto verso do dia vai dormir,
e por acaso está num livro
 do lado da cabeceira,
com um marcador, onde
pode ser despido o escrito:
amanhã eu leio
 este trecho
bonito
para o meu amor.

No quarto verso do dia.
A surpresa é um solavanco do vento
que bate no rosto enquanto é tempo
de assustar o coração.
Dependendo do contexto,
a surpresa é um susto,
mesmo.
Se for algo bom,
é do vento,
um
refresco
a soprar
no coração.
Bolinha azul metalizada com pintinhas pretas.
Aqueles dias que se pudesse desaparecer,
viraria uma joaninha azul de pintas pretas,
me fingiria de céu, e no meio da terra passaria
 por cima de um formigueiro com muita sutileza,
a fuçar a entrada das casas das formigas.
Comeria o que caísse diminutivo na minha frente,
 pegaria carona numa folha, a navegar nas poças,
 que giraria até chegar nas rosas do canteiro da vizinha.
Voltei aos cinco anos, amanhã eu volto mais crescida, 

esticada e decidida, hoje vou virar joaninha.
Tem Rio de Janeiro,
pra todo lado.
Copacabana
no pé da cama,
na sacada do prédio.
Em todo canto a calçada
de lá.
Quando chove,
em todo canto do Brasil,
tem mar.
De Copacabana?
Sei lá!
O duelo
é do ego.

Todo dia um ego morre,
então o id vem e socorre.
O princípio da Casualidade
O princípio da Casualidad
O princípio da Casualida
O princípio da Casualid
O princípio da Casuali
O princípio da Casual
O princípio da Casua
O princípio da Casu
O princípio da Cas
O princípio da Ca
O princípio da C
O princípio da
O princípio d
O princípio
O princípi
O princíp
O princí
O princ
O prin
O pri
O pr
O p
O
O p
O pr
O pri
O prin
O princ
O princí
O princíp
O princípi
O princípio
O princípio d
O príncipio da
O princípio da C
O princípio da Ca
O princípio da Cas
O princípio da Casu
O princípio da Casua
O princípio da Casual
O princípio da Casuali
O princípio da Casualid
O princípio da Casualida
O princípio da Casualidad
O princípio da Casualidade
Você tirou minhas palavras da boca.


Ela

A gente não deu certo desde o início.

Aquele dia foi legal, mas não tão legal assim.

Você tem esta leitura de mim?

De onde você tirou?

Eu não quero que você deixe de ser
romântico. Eu já fui um dia, isso passa.

Ele

A gente errou o olho, mas acertou na boca.

E aquele dia não foi meia boca.

Eu tirei do coração, você sabe que tirar do coração, dói um pouco, né?

Entendi, beleza. Agora me bloqueie, por favor, se não quiser mais receber este tipo de coisa.
O ano dobrou os meses,
e guardou na gaveta.

Algumas peças
estão fora do armário,
e não foram usadas.

Roupa guardada mofa.

Causa espirro, alergia.

Use e passe,
os meses
guardados,
 pra frente.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Só gosto de quem me provoca

Um riso, um pensamento,
um abraço, uma lágrima,
 um juramento,
uma ideia, um silêncio,
um sonho, um pesadelo,
um caminho, um descanso,
um esperanto de saber outras
línguas nascidas, outros povos,
outras gírias.

Sinto muito sempre,
eu gosto de gente.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Terça, amanhã é segunda,
e não adianta insistir.
É bem provável que sexta
chegará mais cedo,
e sábado vai passar mais
devagar por querer,
e domingo vai, como sempre
faz,
 correr,
que semana que vem
segunda começará
na segunda e terça
na terça.

Terça, não inventa!
Somos branca de neve,
comemos maçãs envenenadas,
e não podemos fazer nada.
Na pressa lavamos a fruta
com vinagre benzido,
fingindo limpar
o feitiço.
Maçã sem veneno
custa caro,
não podemos
ficar sem comer,
então fumamos
sem querer
um cigarro.

domingo, 6 de setembro de 2015

É tão difícil ser
si mesmo,

que tem quem
desista
no caminho

 pra ser outro

 e paga o preço.

Quem vai sendo
si mesmo,
vai
vencendo.

E o que é vencer?

Só vendo mesmo.
Em todo país uma fábrica.

Em todo país um povoado.
Em todo país um trocado.
Em todo país um bocado

de pão.

Em todo país um mal entendido.
Em todo país uma língua morta.
Em todo país uma volta.
Em todo país uma história.

Em todo corpo, órgãos, células,
sangues, telas.
Em todo país uma faca cega.

Em todo país uma moeda.
Em todo país uma fila de espera.
Em todo país uma cor.
Em todo país uma bandeira.
Em todo país um amor

que não se encerra.

Em todo país uma sina a ser rasgada
desde a hora que um rebento chega.
O que acontece,
 que só a gente sabe,
e não adianta
 explicar demais
 se tem uma coisa
que é verdade,

só o tempo faz.

O que acontece,
 que só
a gente sabe,
e muita gente passa.
Tem quem aprenda
 lendo um livro,
um filme,
 uma música
uma peça, ou
uma conversa.

O que só a gente sabe,
quando sai da boca,
nem sempre sai toda a verdade,
com pouco espaço que a boca cabe,
que só a gente sabe.

O que acontece, que só a gente sabe,
nem sempre um curso,
uma aula ensina,
às vezes, muito mais vezes,
mais do que se imagina,
 precisa aprender
com a própria vida.

Se ficar muito difícil pra entender,
o que só a gente sabe,
e não consegue nem dizer,
pega o orgulho e bota
pra correr,

e procura
um especialista,

pra explicar o que
só a gente sabe.

sábado, 5 de setembro de 2015

Deixei flores na sua janela,
é quase primavera.
A palavra, a primeira que briga,
e termina se alguém
desiste de brigar
por palavra.
Dando a palavra,
embrulhando
a palavra
num beijo.
Nocaute de silêncio.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Eu morri de amor
e voltei pra contar

que foi de mentirinha.

Que viver de amor
não mata.

Nem baratinha.
O silêncio que antecede a primavera,
ninguém ouve, a não ser os pássaros em suas gaiolas
as plantas condicionadas nos apartamentos,
os automóveis.
A chuva que insiste na chantagem de amolecer as pétalas
para que elas não resistam e abram.
A primavera está chegando, as pessoas atentas
estão falando, mas não ouvem o silêncio
da cidade que a cultiva em seus vasos,
enquanto correm nas calhas suas flores.
Gélido
lido
na lida.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

www, eu te amo tanto!
sem você quem iria me ler?
me ver, me me me?
www, eu te amo tanto!
sem você, minha arte se esconderia ,
o que seria feito da minha poesia?
www, pra você ser minha alegria,
só lhe falta a verdadeira democracia.
www, eu te amo tanto!
Mario de Andrade também te amaria.
Tarsila também te amaria.
Drummond nem se fala!
Pensei até na Cora Coralina!
www, quem conhece não te larga!
Adélia Prado, prefere não se envolver com você!
Manoel de Barros, nem pensar!
Machado, nem conversa!
www, eu te amo tanto!
Camões já navegava,
Fernando Pessoa,
virtualmente em alma já estava,
em você, a Clarice Lispector,
póstuma, inventada.
Carolina de Jesus,
sem conhecer,
te amava!
www eu te amo tanto!
Faz frio e faz de conta
que não viu
as flores.
O vento espalha
sentimento em cores
num dia preto e branco,
na espera por você.

Estou desarmada

Estou desarmada,
sem olhos não tenho espingarda,
para a guerra preparada
eu tenho pálpebras
que se fecham na precipitação
de um verso inverso,
no sangue de kisuco
vermelho espirrado no espelho,
na vontade louca 
que muitos têm de ferir
com requintes de intelectual sobriedade.
O mundo é para os fortes,
eu prefiro ser covarde.
Fecho os olhos e abro o coração,
depois dos cortes,
e a edição das imagens.


Dói como arde.